Pandemias - como observou o historiador Yuval Noah Harari - têm a característica de pressionar o botão de avanço rápido na história. De repente, mudanças que levariam anos de debate, divergência, hesitação, oposição e atraso tornam-se possíveis da noite para o dia.

Para se adaptar a necessidade de isolamento social imposta pela crise do COVID-19 observamos uma transformação em muitos segmentos e, apesar de todos os impactos negativos desta crise na saúde e na economia, muitas consequências positivas já podem ser vistas, como, por exemplo, os anos iminentes de transformação digital nas empresas.

Mudanças positivas também podem ser notadas no meio ambiente. Sem carros nas ruas, nós vemos os níveis de poluição do ar reduzir drasticamente nas principais cidades do mundo. Abaixo alguns exemplos:

  • 30% a 60% de queda nos níveis de emissão de dióxido de nitrogênio (NO2) está sendo registrada em muitas cidades europeias, incluindo Barcelona, Madri, Milão, Paris e Roma segundo a Agência Ambiental Europeia.
  • 30% de queda na emissão de dióxido de nitrogênio (NO2) na China de acordo com a NASA
  • Em Nova York, cientistas do Centro de Desenvolvimento Urbano Sustentável da Universidade Columbia têm monitorado a qualidade do ar de Manhattan e descobriram uma queda de 10% na emissão de dióxido de carbono e de metano, além de uma redução impressionante (50%) de monóxido de carbono devido principalmente a redução da fumaça.
  • Em Londres nós vemos atualmente 60% menos de NO2 em relação ao mesmo período do ano passado.
Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo | Fonte: https://twitter.com/CREACleanAir

Jenny Bates, ativista do Friends of the Earth, diz que a queda na poluição do ar mostra quão rápida a diminuição do tráfego pode ser para limpar o ar. Podemos dizer que o planeta finalmente conseguiu respirar.

Mas agora, como garantir que os benefícios na poluição do ar se estendam para além do COVID-19?

Os líderes mundiais têm a chance de traçar um destino diferente e as cidades são grandes protagonistas em direção a um mundo muito mais sustentável.

O Novo Normal

Não há como voltar à normalidade no pós-COVID. Primeiramente porque fomos forçados a sair da nossa zona de conforto em muitos dos nossos hábitos e descobrimos que é completamente possível - e muito mais conveniente - fazer as coisas que estávamos acostumados de outra maneira. Empresas perceberam que seus funcionários corporativos podem trabalhar facilmente remotamente sem perder a eficiência, podemos fazer cursos e aulas 100% digitais, até a ginástica é possível de ser feita em casa  e comprar on-line pode ser muito mais fácil e conveniente.

Como já foi dito por Albert Einstein: “A mente que se abre para uma nova ideia nunca retorna ao seu tamanho original”.

Segundo, o coronavírus não desaparecerá repentinamente quando sairmos do isolamento - ainda teremos que ter cuidado, manter o distanciamento social e seguir as medidas preventivas para que não aconteça uma nova onda de contaminação.

Com o fim do isolamento e com as pessoas de volta às ruas há o risco de um novo período de contaminação. Como outro surto de COVID-19 poderia fechar mais uma vez escritórios, lojas, restaurantes e fábricas, impedindo o fluxo de bens e serviços e ameaçando mais empregos, os governos devem supervisionar rigorosamente esse processo e a população deve estar ciente da importância do distanciamento social. Definitivamente, precisamos abrir de novo as cidades e a economia, mas será muito importante fazer isso com cuidado, evitando um novo lockdown.

Infraestrutura das cidades como parte da revolução

Quando se trata de infraestrutura das grandes cidades, contextualizando o estilo de vida “novo normal” e em linha com o processo de despoluição que estamos observando nos grandes centros urbanos, tudo pode significar uma grande oportunidade de implementar definitivamente as alternativas de micromobilidade como um hábito na vida das pessoas.

Para garantir o distanciamento social recomendado e evitar o contágio, provavelmente regras de limitação de número de pessoas por vagão serão implementadas nos transporte públicos para evitar grande aglomeração de pessoas, o que pode gerar demoras e ineficiência no uso. Dessa forma, os transportes de micromobilidade  - que são individuais e utilizados ao ar livre - serão excelentes opções para atender a demanda de transporte e manter as pessoas saudáveis. E parece que os grandes centros urbanos já estão se preparando para isso:

Ciclovias temporárias em Bogotá | Fonte: www.mobilize.org.br
  • Milão, Itália: A cidade anunciou que 35 quilômetros (22 milhas) de ruas serão transformadas durante o verão com uma rápida expansão de espaços experimentais de ciclismo e caminhada para proteger os moradores a medida que as restrições do COVID-19 forem levantadas. Marco Granelli, vice-prefeito de Milão, disse: “Trabalhamos por anos para reduzir o uso do carro. Se todos usam carros não há espaço para as pessoas, não há espaço para se locomover, não há espaço para atividades comerciais fora das lojas. É claro que queremos reabrir a economia, mas precisamos fazer isso de maneira diferente da anterior.”
Projetos de expansão dos espaços para ciclistas e pedestres em Milão | Fonte: www.theguardian.com
  • Miraflores, Peru: O município de Miraflores iniciará em breve um plano piloto para a implementação de rotas temporárias de micromobilidade (VMR) para promover o uso de bicicletas e veículos de mobilidade individual durante o estado de emergência sanitária.
  • Berlim, Alemanha: Berlim acendeu a luz verde para um projeto que tem ampliado temporariamente duas ciclovias como parte dos esforços para melhorar a segurança no ciclismo sem prejudicar o fluxo do tráfego.  
  • Nova Zelândia: O Primeiro Ministro anunciou um fundo emergencial para ser usado por cidades que querem implementar ciclovias temporárias.
  • Cidades como a Cidade do México e Londres estão vendo os benefícios de muitos anos gastos no crescimento de suas redes de ciclismo e estão se movendo para fazer as medidas temporárias deste segmento se tornarem permanentes.
  • Nesse documento fornecido pela NACTO (Associação Nacional de Autoridades de Transporte Urbano da América do Norte) é possível encontrar as melhorias mencionadas acima e outros exemplos que estão sendo feitos em todo o mundo para melhorar a infraestrutura das cidades.

Agora é a hora das cidades responderem construindo infraestrutura e abrindo espaço em suas ruas para acomodar os meios de micromobilidade. Isso deve acontecer em conjunto com a promulgação de políticas que mantém os usuários seguros e incentiva mais pessoas a aderir a esses modais.

Investir em infraestrutura para oferecer suporte à micromobilidade - de faixas protegidas, estacionamentos acessíveis em massa e programas de compartilhamento de bikes e patinetes - é exatamente o investimento de ganha-ganha que vai contribuir para a retomada econômica e a conter as mudanças climáticas, reduzindo a poluição do ar e protegendo a saúde das pessoas.

E como está o Brasil?

Embora grandes esforços estejam sendo feitos no mundo em relação a isso ainda não conseguimos ver nenhum deles sendo feito no Brasil.

Enquanto nós temos um dos maiores congestionamentos de trânsito do mundo na maioria das nossas cidades e contribuímos muito para a emissão de CO2 no planeta, eu pergunto: Vamos viver o “novo normal” mantendo a antiga infraestrutura e os velhos hábitos em nossas cidades?

Ponte Chaoyang, em Pequim | Fonte: https://brasil.elpais.com/

Eu vejo uma grande oportunidade para os governos brasileiros, usando as cidades citadas como exemplo, para trabalhar estrategicamente para incluir opções de mobilidade no plano de reabertura das cidades.

Transformar faixas de lazer em faixas permanentes, expandir a infraestrutura para bicicletas com novas ciclofaixas; oferecer bikes públicas e patinetes elétricas em larga escala para a população e também integrar os meios de transporte com tecnologia. Reduzir drasticamente os estacionamento para carros e zonas azuis transformando-as em calçadas ou ciclovias e estacionamentos. Subsidiar a compra de bikes e patinetes ou parte do preço do transporte para empresas que oferecem esse serviço são algumas das opções de incentivo ao segmento.

Por fim, é muito importante perceber que em todas as situações, apesar da dificuldade, sempre temos que analisar os fenômenos ao redor que podem nos levar a soluções inovadoras e transformadoras que nos moverão definitivamente para um futuro melhor.

Se não agora, quando?